Helás
Helás, si j'étais musik und poesie
trés justement misosophe
talvez pudesse respirar
ou adivinhar
durante um segundo,
uma ilusão de verdade.
(Em equilíbrio no tempo, Tea For One, Lisboa, 2012, p. 13).
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Foi há 40 anos...
(Lembrado pelo homem da memória ilimitada...)
domingo, 29 de janeiro de 2012
A poesia em 2012: Daniel Jonas
Ontem devia ter comprado o PÚBLICO. Por causa disto:
As folhas caídas
As folhas caídas
Nada de muito diferente de há quarenta mil anos.
Estes alunos são ainda homens das cavernas.
Verdadeiramente totémicos,
os pré-históricos alunos
desenham falos em livros de encantar,
castigam as páginas de belos livros com
conspícuos e vigorosos membros
deteriorando os materiais, aviltando o texto,
sobrepondo à cândida ilustração
a sua leitura do mundo,
a sua arma de escolha.
As meninas ficam horrorizadas.
nem falam.
As pinturas rupestres estão agora por todo o lado:
livros, carteiras, paredes
como nas paredes das cavernas há quarenta mil anos...
E em que é que estas diferem daquelas?
E o que é uma sala de aula senão uma caverna
e as paredes paredes?
Civilizações de permeio apenas,
a possibilidade da rinoplastia...
Eu olho-os com os seus occipitais protuberantes,
na depressão de testa e mento,
na fria latitude pleistocénica
desta caverna
onde Platão não tem lugar,
apenas o mamute que prenuncio lá fora,
gélido como um temporal,
proboscídeo, adventício,
anunciando a era do elefante.
As folhas caem. Os falos também...
Tudo está solto, caduco.
Estes alunos são os elefantes que o mamute anuncia.
E os genitais continuam a ser um modo de expressão,
de pôr trombas em todo o lado, epigramas
assomando nesta tarde cinzenta.
enquanto atiro o olhar
pelo ponto de fuga da janela,
o meu olhar irreprimível face aos lenhos,
vigorosamente inscritos
na paisagem.
Daniel Jonas (lido aqui)
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
John & Jehn (20L07)
Como as leituras de poesia têm andado um bocadinho limitadas por falta de tempo, compensemos com música pop:
(Obrigado, p.)
(Obrigado, p.)
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Um dos livros de poesia traduzida do ano
(Ouvido, lido e visto no Bibliotecário de Babel; Vai dormir, F*da-se, de Adam Mansbach; uma edição da ArtePlural; ilustrações de Ricardo Cortés; tradução de Joana Neves; música de Alexandre Cortez; leitura de Nuno Markl).
Sonhos cor-de-rosa!
sábado, 31 de dezembro de 2011
A poesia em 2011
Por ordem alfabética dos títulos, 15 livros de poesia publicados este ano que li e que destaco:
- 2010-2011, Ana Paula Inácio, Averno;
- A mão na água que corre, José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim;
- As raízes diferentes, Fernando Guimarães, Relógio D'Água;
- Cobra d' Água, A. M. Pires Cabral, Cotovia;
- Como se desenha uma casa, Manuel António Pina, Assírio & Alvim;
- Cova Funda, Nunes da Rocha, & etc;
- Em caso de tempestade este jardim será encerrado, Inês Dias, Tea for One;
- Lendas da Índia, Luís Filipe Castro Mendes, D. Quixote;
- Motet pour les trépassés, Manuel de Freitas, Língua Morta;
- Nervo, Diogo Vaz Pinto, Averno;
- O som do sôpro, António Barahona, Poesia Incompleta;
- Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, António Barahona, Averno;
- Serém, 24 de Março, José Miguel Silva, Averno;
- Um arraial português, Rui Lage, Ulisseia;
- Vim porque me pagavam, Golgona Anghel, Mariposa Azual.
- 2010-2011, Ana Paula Inácio, Averno;
- A mão na água que corre, José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim;
- As raízes diferentes, Fernando Guimarães, Relógio D'Água;
- Cobra d' Água, A. M. Pires Cabral, Cotovia;
- Como se desenha uma casa, Manuel António Pina, Assírio & Alvim;
- Cova Funda, Nunes da Rocha, & etc;
- Em caso de tempestade este jardim será encerrado, Inês Dias, Tea for One;
- Lendas da Índia, Luís Filipe Castro Mendes, D. Quixote;
- Motet pour les trépassés, Manuel de Freitas, Língua Morta;
- Nervo, Diogo Vaz Pinto, Averno;
- O som do sôpro, António Barahona, Poesia Incompleta;
- Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, António Barahona, Averno;
- Serém, 24 de Março, José Miguel Silva, Averno;
- Um arraial português, Rui Lage, Ulisseia;
- Vim porque me pagavam, Golgona Anghel, Mariposa Azual.
Vítor Nogueira e Bénédicte Houart publicaram também bons livros, Modo fácil de copiar uma cidade, & etc, e Vida: variações II, Cotovia, respetivamente. De assinalar ainda, em edição dos autores, A dança das feridas, de Henrique Fialho, Rumor, de José Carlos Barros e Teorias, de manuel a. domingos. Não foram lidos (por enquanto) os Negócios em Ítaca, de Bernardo Pinto de Almeida, Relógio D'Água; Tentativa e erro, de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim; Portas do mar, de Manuel de Freitas, edição do autor; O comportamento das paisagens, de Pedro Tiago e Breve passagem pelo fogo, de Frederico Pedreira, os dois últimos editados pela Artefacto. A Assírio & Alvim editou duas antologias imperdíveis, uma de Manuel António Pina (organizada pelo próprio) e outra de Ruy Belo, poemas escolhidos por Manuel Gusmão. Pedro Mexia também se autoantologiou em Menos por menos (edição D. Quixote); João Luís Barreto Guimarães reuniu os poemas (edição Quetzal). As revistas Telhados de Vidro e Criatura continuam a dar cartas e têm trunfos muito fortes. A Piolho é irregular (o número 6 foi o melhor, até agora). A Golpe d' Asa não começou mal, talvez possa melhorar. Que se foda a crise. Feliz Ano Novo.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
"a pintura"
Em parte, talvez seja assim. Mas penso que só em parte. Veja-se, por exemplo, um livro do ano que agora finda que, prática e imerecidamente, passou despercebido, A mão na água que corre, de José Manuel de Vasconcelos (Assírio & Alvim). Pintura? Rubens e Van Gogh, sim, mas também Christopher Pratt ou Lourdes Castro. Ou Gerardo Rueda:
NUMA EXPOSIÇÃO DE GERARDO RUEDA
Olhavas para um quadro de Rueda
com um ar curioso mas displicente
procurando acolher aquelas três ou quatro
massas de cor na desorganização do teu olhar
que bem reflectia a tua vida
e eu contemplava-te apenas a pensar em sexo
e colocava-te mentalmente nas posições
em que gostaria de te possuir nessa noite
quando na efémera paisagem do quarto de hotel
organizássemos a relação do desejo
com os objectos que o habitavam (cama, cadeira, espelhos,
e até o armário)
No fundo, no teu corpo
inscrevia-se a indecifrável vertigem
que une a arte e a vida
(p. 60)
Também aqui se vê, curiosamente, à maneira de Hopper, uma "efémera paisagem d[e] quarto de hotel"; mas não se vislumbra nenhuma melancolia, antes desejo e vertigem. A propósito de vertigem, ocorre-me ainda um outro exemplo (igualmente de um livro deste ano): 2010-2011, de Ana Paula Inácio. Também aqui, em vez de Hopper, as latas de Tomato Soap ou as embalagens de detergente Brillo de Warhol; ou Francis Bacon. Sim, apesar de tudo, a coisa é muito mais divertida e interessante.
sábado, 24 de dezembro de 2011
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
A poesia em 2011: Manuel da Silva Ramos
Equipado para morrer
deixei a minha casa
equipado para morrer
mas não morri
saí do café trivial
equipado para morrer
mas não morri
pus-me à espera do eléctrico
equipado para morrer
mas não morri
entrei no meu emprego
equipado para morrer
mas não morri
saí do meu emprego
equipado para morrer
mas não morri
apanhei o autocarro
equipado para morrer
mas não morri
entrei no bar
equipado para morrer
mas não morri
regressei a casa
equipado para morrer
mas não morri
deitei-me na minha cama
equipado para morrer
e não morri
deixei a minha casa
equipado para morrer
mas não morri
saí do café trivial
equipado para morrer
mas não morri
pus-me à espera do eléctrico
equipado para morrer
mas não morri
entrei no meu emprego
equipado para morrer
mas não morri
saí do meu emprego
equipado para morrer
mas não morri
apanhei o autocarro
equipado para morrer
mas não morri
entrei no bar
equipado para morrer
mas não morri
regressei a casa
equipado para morrer
mas não morri
deitei-me na minha cama
equipado para morrer
e não morri
(Golpe d'asa, CLEPUL e GOLPE Edições, Lisboa, novembro, 2011, p. 21).
domingo, 4 de dezembro de 2011
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
A poesia em 2011: Miguel Martins
24 - Dos & dont's
Não quero aumentar o tamanho do meu pénis.
Não quero habilitar-me a uma fantástica bimby.
Não quero passar um fim-de-semana num magnífico hotel da parvónia.
Quero que metam a internet, de uma pnta à outra, pelo cu
e, já agora, a rádio, a televisão e os jornais (rotativas incluídas).
Quero um mordomo, isso quero, de libré,
para me fazer mayonnaise e ler a Bíblia;
um harém, de faces trigueiras e rosadas,
que saiba amar e cultivar legumes;
e quero, sobretudo, o som do mar
agora e na hora da minha morte.
(Lérias, Averno, Lisboa, 2011, p. 37).
Não quero aumentar o tamanho do meu pénis.
Não quero habilitar-me a uma fantástica bimby.
Não quero passar um fim-de-semana num magnífico hotel da parvónia.
Quero que metam a internet, de uma pnta à outra, pelo cu
e, já agora, a rádio, a televisão e os jornais (rotativas incluídas).
Quero um mordomo, isso quero, de libré,
para me fazer mayonnaise e ler a Bíblia;
um harém, de faces trigueiras e rosadas,
que saiba amar e cultivar legumes;
e quero, sobretudo, o som do mar
agora e na hora da minha morte.
(Lérias, Averno, Lisboa, 2011, p. 37).
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
A poesia em 2011: Nunes da Rocha
Nódoa
Tenho uma nódoa na camisa,
Meu coração não está de maré!
Pudesse tirar um verso da matriz,
Como do nariz, um burrié!
Tenho uma nódoa na camisa,
Meu coração não está de maré!
Pudesse tirar um verso da matriz,
Como do nariz, um burrié!
(Cova funda, &etc, Lisboa, 2011, p. 21).
domingo, 6 de novembro de 2011
A poesia em 2011: António Barahona
Falar de coisas práticas
Falar de coisas práticas, talvez
tratar dos meus negócios em poemas;
atender, por extenso, às circunstâncias
de passar fome há mais de meio mês.
A história do cavalo do inglês
faz-me rir a bandeiras despregadas,
digo sílabas só embandeiradas
e cômo os pregos um de cada vez.
Mudar a minha ementa, eu aspiro,
porque já tenho o estômago de ferro
e meu trabalho é tornar-me em oiro:
a luta dos metais, maior tesoiro,
religa a alquimia em que me encerro
no sonho dum bom bife e dum cigarro.
Falar de coisas práticas, talvez
tratar dos meus negócios em poemas;
atender, por extenso, às circunstâncias
de passar fome há mais de meio mês.
A história do cavalo do inglês
faz-me rir a bandeiras despregadas,
digo sílabas só embandeiradas
e cômo os pregos um de cada vez.
Mudar a minha ementa, eu aspiro,
porque já tenho o estômago de ferro
e meu trabalho é tornar-me em oiro:
a luta dos metais, maior tesoiro,
religa a alquimia em que me encerro
no sonho dum bom bife e dum cigarro.
(Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, Lisboa, 2011, p. 100).
terça-feira, 1 de novembro de 2011
O amor é cego e dura até hoje
Passaram vinte anos. Parece que foi ontem. Recomecemos mais uma vez. E outra. E outra.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Carlos Queirós
Anti-soneto
O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.
Ao Mário Saa
O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.
(Poemas portugueses. Antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, prefácio de Vasco da Graça Moura, Porto Editora, Porto, 2009, p. 1291).
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Go get some rosemary...
(19 de Setembro de 1981, Central Park, Nova Iorque...)
(Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary & thyme
Remember me to one who lives there
She once was a true love of mine
Tell her to make me a cambric shirt
(On the side of a hill in the deep forest green)
Parsely, sage, rosemary & thyme
(Tracing a sparrow on snow-crested ground)
Without no seams nor needlework
(Blankets and bedclothes a child of the mountains)
Then she'll be a true love of mine
(Sleeps unaware of the clarion call)
Tell her to find me an acre of land
(On the side of a hill, a sprinkling of leaves)
Parsely, sage, rosemary, & thyme
(Washed is the ground with so many tears)
Between the salt water and the sea strand
(A soldier cleans and polishes a gun)
Then she'll be a true love of mine
Tell her to reap it in a sickle of leather
(War bellows, blazing in scarlet battalions)
Parsely, sage, rosemary & thyme
(Generals order their soldiers to kill)
And to gather it all in a bunch of heather
(And to fight for a cause they've long ago forgotten)
Then she'll be a true love of mine
Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary & thyme
Remember me to one who lives there
She once was a true love of mine.)
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
A poesia em 2011: José Bento
12
Não há ninguém para ouvir, se acaso cantam
a chuva, pássaros, ausências vibrantes
na cozinha de outrora,
- no telhado onde a noite repousa de seus astros,
nas ramagens transidas mais que por raízes
sôfregas dos passos enterrados:
pelo vazio talhado por quantos se apagaram
sem poder acenar-lhes sequer o olhar restante.
Do fumo, nem névoa nem olor,
(aquele extenso olor de lembranças e pinho)
só a sua escrita viva nas lajes, nas madeiras:
aqui, diz a caruma a espertar o café;
ali, que ateiam lenha mãos tão anafosas
que sob a terra inda me acalentam;
e leio mais além as ceias, os serões
de sabores e conversas fluindo sonolentos.
Há a porta fechada por uma chave perra
sem haver quem recorde onde ela está guardada;
e a lareira e a mesa, já não pedra e castanho:
rostos sob a poeira sem lábios para a voz;
e o cântaro, a soleira, as janelas, o cesto,
sem água nem pegadas, sem cortinas e pão.
Longínquo, desconheço o que aí sobrevive:
houve palavras, gestos, achas nem cinza hoje,
calor e não apenas de sol e labaredas,
em redor soltou-se a aura de pólen e trinados;
isto me chama e abriga como as paredes trémulas,
mais de vestigíos plenos que de cal e adobes,
onde busco quem fui sem me importar se o encontro,
entre rastos de sombras e de asas já sem voo.
(Sítios, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011, pp. 24-25).
A Joaquim Manuel Magalhães
Não há ninguém para ouvir, se acaso cantam
a chuva, pássaros, ausências vibrantes
na cozinha de outrora,
- no telhado onde a noite repousa de seus astros,
nas ramagens transidas mais que por raízes
sôfregas dos passos enterrados:
pelo vazio talhado por quantos se apagaram
sem poder acenar-lhes sequer o olhar restante.
Do fumo, nem névoa nem olor,
(aquele extenso olor de lembranças e pinho)
só a sua escrita viva nas lajes, nas madeiras:
aqui, diz a caruma a espertar o café;
ali, que ateiam lenha mãos tão anafosas
que sob a terra inda me acalentam;
e leio mais além as ceias, os serões
de sabores e conversas fluindo sonolentos.
Há a porta fechada por uma chave perra
sem haver quem recorde onde ela está guardada;
e a lareira e a mesa, já não pedra e castanho:
rostos sob a poeira sem lábios para a voz;
e o cântaro, a soleira, as janelas, o cesto,
sem água nem pegadas, sem cortinas e pão.
Longínquo, desconheço o que aí sobrevive:
houve palavras, gestos, achas nem cinza hoje,
calor e não apenas de sol e labaredas,
em redor soltou-se a aura de pólen e trinados;
isto me chama e abriga como as paredes trémulas,
mais de vestigíos plenos que de cal e adobes,
onde busco quem fui sem me importar se o encontro,
entre rastos de sombras e de asas já sem voo.
(Sítios, Assírio & Alvim, Lisboa, 2011, pp. 24-25).
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
A poesia em 2011: Golgona Anghel
Portugal, dia um de Maio de dois mil e oito.
As nossas janelas têm vista para o Mediterrâneo.
Os nossos turitas são ingleses. As nossas cozinheiras angolanas.
As nossas empregadas brasileiras.
Os nossos pedreiros ucranianos.
Os nossos comerciantes chineses e indianos.
As nossas amantes baratas.
As nossas putas disponíveis - agora, se faz favor.
Os nossos sonhos transatlânticos.
Os nossos hábitos light, soft, ecológicos, se possível.
Os nossos medos hoje são negros.
Os nossos dias contados.
As cegonhas têm a cor do querosene
e o sentido apurado dos Airbus 380.
Sobeja alguma caixa de Pandora,
com alguns dentes de ouro guardados lá dentro.
No Outono, iremos apanhá-los quais frutos maduros
caídos no chão das câmaras de gás da nossa consciência.
Até lá, vamos diariamente povoando
o nosso jardim zoológico com animais virtuais.
O ambiente está bom. O tempo provável.
As modelos dos clipes publicitários da Colgate,
os bushes e as torres gémeas, o sarkozy e as carla bruni
etc., estão todos a sonhar os nossos sonhos
desde uma margem da história
que não vinha nos manuais,
desde o outro lado do ecrã dos nossos plasmas philips,
desde o real socialismo
que falhou, falhou, falhou tantas vezes
melhor no sonho da sua realidade
desde uma união aduaneira cada vez mais integrada,
do banco europeu onde o próprio presidente nos sonha
na fossa comum da política agrícola (PAC)
desde a altura do seu bigode,
desde a fofura da sua almofada,
com fantasisas em seda bordadas nas margens
e uma palavra com letras pequeninas,
preto sobre branco,
a-r-m-a-n-i.
(Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, Lisboa, pp. 70-71).
As nossas janelas têm vista para o Mediterrâneo.
Os nossos turitas são ingleses. As nossas cozinheiras angolanas.
As nossas empregadas brasileiras.
Os nossos pedreiros ucranianos.
Os nossos comerciantes chineses e indianos.
As nossas amantes baratas.
As nossas putas disponíveis - agora, se faz favor.
Os nossos sonhos transatlânticos.
Os nossos hábitos light, soft, ecológicos, se possível.
Os nossos medos hoje são negros.
Os nossos dias contados.
As cegonhas têm a cor do querosene
e o sentido apurado dos Airbus 380.
Sobeja alguma caixa de Pandora,
com alguns dentes de ouro guardados lá dentro.
No Outono, iremos apanhá-los quais frutos maduros
caídos no chão das câmaras de gás da nossa consciência.
Até lá, vamos diariamente povoando
o nosso jardim zoológico com animais virtuais.
O ambiente está bom. O tempo provável.
As modelos dos clipes publicitários da Colgate,
os bushes e as torres gémeas, o sarkozy e as carla bruni
etc., estão todos a sonhar os nossos sonhos
desde uma margem da história
que não vinha nos manuais,
desde o outro lado do ecrã dos nossos plasmas philips,
desde o real socialismo
que falhou, falhou, falhou tantas vezes
melhor no sonho da sua realidade
desde uma união aduaneira cada vez mais integrada,
do banco europeu onde o próprio presidente nos sonha
na fossa comum da política agrícola (PAC)
desde a altura do seu bigode,
desde a fofura da sua almofada,
com fantasisas em seda bordadas nas margens
e uma palavra com letras pequeninas,
preto sobre branco,
a-r-m-a-n-i.
(Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, Lisboa, pp. 70-71).
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
António Gedeão
Anti-Anne Frank
Esta criança esquálida,
de riso obsceno e olhares alucinados,
nunca apertou nas mãos a fria face pálida,
nunca sentiu, na escada, as botas dos soldados,
nunca enxugou as lágrimas que aniquilam e esgotam,
nunca empalideceu com o metralhar de um tanque,
nem rastejou num sótão,
nem se chama Anne Frank.
Nunca escreveu um díário nem nunca foi à escola,
nem despertou o amor de editores piedosos.
Nunca estendeu as mãos em transes dolorosos
a não ser nos primores da técnica da esmola.
Batem-lhe, pisam-na, insultam-na, sem que ninguém se importe.
E ela, raivosa e pálida,
morde, estrebucha, cospe, odeia atá à morte.
Pobre criança esquálida!
Até no sofrimento é preciso ter sorte.
Esta criança esquálida,
de riso obsceno e olhares alucinados,
nunca apertou nas mãos a fria face pálida,
nunca sentiu, na escada, as botas dos soldados,
nunca enxugou as lágrimas que aniquilam e esgotam,
nunca empalideceu com o metralhar de um tanque,
nem rastejou num sótão,
nem se chama Anne Frank.
Nunca escreveu um díário nem nunca foi à escola,
nem despertou o amor de editores piedosos.
Nunca estendeu as mãos em transes dolorosos
a não ser nos primores da técnica da esmola.
Batem-lhe, pisam-na, insultam-na, sem que ninguém se importe.
E ela, raivosa e pálida,
morde, estrebucha, cospe, odeia atá à morte.
Pobre criança esquálida!
Até no sofrimento é preciso ter sorte.
(Reproduzido em Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; prefácio de Vasco Graça Moura, Porto Editora, Porto, 2009, pp. 1288/1289).
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
domingo, 24 de julho de 2011
A poesia em 2011: José Alberto Oliveira
A província
1. Chaves
Qual a virtude
das cidades pequenas?
A bondade das sestas?
A excelência de almoços
nos fins de semana?
A melancolia do crepúsculo
no traço das serras?
Se outros preferem
mediocridade mais anónima
haverá quem pense
que algum sítio
é bom para viver.
Ou nenhum.
O que é o mesmo.
2. Chá (e um epigrama de Palladas)
As tias do Castelejo
não permitiam que as visitas
saíssem sem beber
xícaras de chá forte e açucarado
- eu tinha por esse chá a devoção
e o entusiasmo de um prosélito.
Agora, que lavam os pires
nas ribeiras do paraíso
e eu substituí a tal infusão
benévola por sublimados bárbaros,
estarei também já morto
e a vida é um sonho,
ou estarei vivo
e foi a vida que morreu?
(Telhados de Vidro, nº 15, Averno, Lisboa, pp. 29-30).
1. Chaves
Qual a virtude
das cidades pequenas?
A bondade das sestas?
A excelência de almoços
nos fins de semana?
A melancolia do crepúsculo
no traço das serras?
Se outros preferem
mediocridade mais anónima
haverá quem pense
que algum sítio
é bom para viver.
Ou nenhum.
O que é o mesmo.
2. Chá (e um epigrama de Palladas)
As tias do Castelejo
não permitiam que as visitas
saíssem sem beber
xícaras de chá forte e açucarado
- eu tinha por esse chá a devoção
e o entusiasmo de um prosélito.
Agora, que lavam os pires
nas ribeiras do paraíso
e eu substituí a tal infusão
benévola por sublimados bárbaros,
estarei também já morto
e a vida é um sonho,
ou estarei vivo
e foi a vida que morreu?
(Telhados de Vidro, nº 15, Averno, Lisboa, pp. 29-30).
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